No passado dia 15 de janeiro de 2026 realizou-se a Mesa Redonda PIEM “Perda Não Finita e Lutos Não Reconhecidos na Comunidade DID”, integrada no Módulo 0 do FMAL – Formação Multidisciplinar no Apoio ao Luto. Esta iniciativa constituiu um espaço de reflexão e diálogo dedicado às experiências de luto vividas em contextos de Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais (DID), frequentemente marcadas por perdas ambíguas, não finitas e socialmente invisibilizadas.
O encontro centrou-se na compreensão de formas de luto que não se enquadram nos modelos tradicionais associados à morte, mas que se manifestam de forma contínua, recorrente e cumulativa ao longo do tempo. No contexto da DID, estas experiências estão muitas vezes ligadas à perda de expectativas idealizadas, à confrontação permanente com limites funcionais, à incerteza face ao futuro e às transições ao longo do ciclo de vida. Trata-se de um luto que permanece ativo, sem um ponto claro de resolução, e que tende a ser pouco reconhecido ou legitimado socialmente.
Durante a sessão, foi destacado o impacto emocional e relacional deste tipo de luto nas famílias, em particular nos pais e cuidadores de pessoas com necessidades específicas. Sentimentos de tristeza persistente, ambivalência, culpa, exaustão emocional e isolamento social foram identificados como reações frequentes, muitas vezes vividas em silêncio, devido à ausência de espaços de validação e compreensão. A mesa redonda sublinhou a importância de reconhecer a especificidade do luto não finito, evitando leituras patologizantes e promovendo abordagens que integrem a complexidade destas experiências.
A iniciativa contou com a facilitação da Prof.ª Janet McCord, especialista internacional em Tanatologia, formadora convidada no âmbito do FMAL, cuja intervenção contribuiu para o enquadramento conceptual do luto não reconhecido e para a reflexão sobre práticas de apoio sensíveis e inclusivas. A sessão reuniu cerca de 30 participantes, entre familiares de pessoas com DID, profissionais com interesse na área e académicos, promovendo uma troca de perspetivas marcada pela escuta, pelo respeito e pela partilha de experiências vividas.
Um dos pontos centrais da discussão foi o papel da educação psicossocial para o luto não reconhecido como ferramenta fundamental para a construção de comunidades mais esclarecidas, inclusivas e acolhedoras. Reconhecer estas formas de perda permite reduzir o estigma, legitimar o sofrimento e criar condições para respostas mais adequadas por parte de profissionais, serviços e instituições. A educação para o luto surge, assim, como um elemento estruturante na promoção de uma cultura de cuidado, dignidade e pertença, especialmente junto de populações historicamente marginalizadas.
Esta mesa-redonda resultou de uma colaboração entre o projeto de investigação “Aconselhamento no Luto: a formação especializada no contexto português” e o PIEM – Programa Individual de Estudos Multidisciplinares da Universidade de Aveiro, reforçando um compromisso comum com uma educação mais inclusiva, sensível à diversidade humana e atenta às múltiplas formas de viver e cuidar o luto na comunidade.
Don’t miss those teachable moments to educate people about grief. Every loss matters.
Professor Janet McCord
(Edgewood University, US)
