No passado dia 17 de janeiro de 2026, a investigadora Cristina Felizardo foi distinguida com o Prémio de Distinção, no âmbito da “Noite Grande das Comemorações”, promovida pela Câmara Municipal de Ílhavo, através da Maior Idade. A cerimónia, realizada na Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré, integrou as comemorações do aniversário do Laboratório do Envelhecimento e do Fórum Maior Idade, afirmando-se como um momento de celebração, reconhecimento público e valorização de percursos marcados pelo compromisso com a comunidade.
A distinção atribuída a Cristina Felizardo reconheceu o trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo dos anos, com particular impacto na consolidação de uma cultura do luto, em colaboração com o Laboratório do Envelhecimento, e na promoção de uma sociedade mais atenta, justa e inclusiva face às questões perda, das transições de vida e da longevidade. Esta homenagem reveste-se de especial significado pelo modo como articula investigação, intervenção comunitária e educação para o luto, num território que tem vindo a afirmar-se pela inovação social e pelo investimento em respostas de proximidade. Mais do que uma distinção individual, o prémio assinalou um percurso construído em rede, com múltiplas pessoas, instituições e relações, que sustentam uma prática profundamente enraizada no compromisso humano com o outro.
No discurso proferido na cerimónia, Cristina Felizardo assumiu essa dimensão coletiva da homenagem, recusando entendê-la como mérito isolado. Com emoção, gratidão e humildade, evocou a equipa da Câmara Municipal de Ílhavo, os seus mentores, orientadoras, colegas, amigos e família, reconhecendo que o trabalho em torno da cultura do luto só é possível quando existe uma verdadeira comunidade de cuidado. As suas palavras evidenciaram, de forma particularmente comovente, a íntima relação entre experiência pessoal, percurso académico e intervenção social.
Num campo ainda marcado por silêncios, resistências e desigualdades no acesso ao apoio, esta homenagem ganha também um valor simbólico mais amplo: o de reconhecer publicamente a importância da educação para o luto e da construção de respostas comunitárias que validem o sofrimento, promovam literacia e reforcem os laços sociais. Ao distinguir este percurso, Ílhavo reconhece não apenas uma profissional, mas também uma causa: a de que ninguém deve enfrentar a dor da perda sozinho.
Segue-se uma transcrição do discurso proferido pela galardoada nessa noite:
“Boa noite. Começo por agradecer à Câmara Municipal de Ílhavo por esta homenagem na pessoa do Sr. Presidente de Câmara, Dr. Rui Dias. Recebo este Prémio de Distinção com carinho, gratidão e humildade. Tal como os colegas que também foram homenageados esta noite (e que aqui parabenizo), explicaram, este prémio nunca pode ser atribuído a uma só pessoa e não é. Se estou aqui hoje perante vós, neste papel é porque tenho uma multidão de pessoas que me rodeia e que tornou possível todos estes feitos. Permitam-me com este Prémio, homenagear-vos a todos.
O meu agradecimento vai, em primeiro lugar, para a equipa da casa (Câmara Municipal de Ílhavo, Maioridade, Laboratório do Envelhecimento) nas pessoas de Mónica Batista, Cristina Teixeira, Bruno Soares, Nuno Craveiro e Clara Rocha. Foram vocês que me acolheram de ‘braços abertos’ e, em conjunto, ‘arregaçámos as mangas’ e pusemos ‘em marcha’ esta cultura do luto, para que ninguém tenha de doer sozinho, nem durante tanto tempo. Estão duplamente de Parabéns hoje!
Um agradecimento especial aos meus mentores, por me ajudarem a desensarilhar pensamentos que vão nascendo e crescendo, sempre ávidos de ensinamentos sábios.
Por isso, um grande obrigado ao Professor Artur Rosa Pires (que neste momento deve estar ali atrás nas filas do fundo, a abanar a cabeça com a humildade que tão bem o caracteriza), pois é ele o grande ‘pensador’ por detrás do desenho deste programa comunitário no luto, e eu a grande privilegiada por poder usufruir das nossas conversas, que entre chá e bolinhos, me permitem absorver cada pensamento seu, que me ajudam a construir o meu.
Quero expressar uma palavra de agradecimento à Professora Janet McCord, da Universidade de Edgewood (Wisconsin, EUA). Portanto, este trabalho vai muito além-fronteiras. É uma honra ter a Professora Janet aqui connosco esta noite, nesta cerimónia, sobretudo, depois de duas semanas intensivas de trabalho. Para quem não sabe, a professora Janet McCord é Diretora do Mestrado em Tanatologia e Educadora do Luto e tem sido um contributo essencial no desenvolvimento do meu percurso doutoral na área de formação especializada no apoio ao luto. Aliás, estivemos as duas na semana passada, no Laboratório do Envelhecimento, com profissionais de diferentes áreas de intervenção (educação, gerontologia, psicologia e saúde) a abordar precisamente as questões prioritárias na educação para o luto. Foi extraordinário.
E claro, um agradecimento sentido às minhas orientadoras da Universidade de Aveiro, porque estes meus feitos que estão hoje a ser homenageados fazem parte do projeto de investigação do Programa Doutoral em Educação: a Professora Paula Santos, que infelizmente não pode estar presente e a Professora Margarida Cerqueira, que também está aqui hoje. Sem elas, a alumiar alguns dos caminhos escuros nestes anos de percurso doutoral, isto não teria sido possível.
O que eu vos quero acrescentar é que antes de ser profissional, eu sou pessoa.
E jamais poderia fazer o que eu faço se não tivesse uma rede de afetos que me ampara, que me equilibra e que me eleva quando eu preciso.
Portanto, aos meus colegas de investigação, o meu muito obrigada por me estenderem a ‘mão’ nos meus (inúmeros) pedidos de socorro e por seguirem comigo a cada desafio. Este é o resultado de um trabalho de muitas mentes.
Aos meus amigos, mais antigos e mais recentes, à minha família escolhida – família de coração – vocês têm um papel fundamental em mim, neste percurso… são fonte de energia e pausa para descanso.
À minha irmã, laço de sangue, que partilha vida e experiência desde o berço. Mas é também – e sinto-me sortuda em dizê-lo – um laço de afeto. Para além de irmãs somos amigas, melhores amigas, com algo único (indizível) que nos une. E que veio de propósito da Noruega para me fazer uma surpresa e estar presente nesta cerimónia.
Aos meus pais. Aos meus pais que são o berço de afetos e que me deram o melhor deles mesmos. Que quiseram mais para mim, do que as oportunidades que conheceram, que acreditaram sempre, mesmo não compreendendo totalmente, depositaram em mim uma fé inabalável, fruto de amor incondicional.
À minha cara-metade, o meu companheiro, o amor da minha vida, o meu melhor amigo, o meu conselheiro, o meu coach motivacional, o melhor cozinheiro do mundo e, sobretudo, aquele que é o meu cuidador, um beijo com especial gratidão. Este Prémio é nosso, Rui, não é meu. Se eu faço o que faço é porque tu cuidas de mim, para eu poder cuidar dos outros e isso é tanto.
Finalmente (e ele está cá hoje), a mensagem à pessoa que fez de mim o que eu sou hoje.
Se eu estudo, trabalho e falo do Luto, se hoje vocês puderam escutar as palavras naquele vídeo de introdução a esta menção, muito honrosa, e que me deixou muito emocionada, é porque esta pessoa me fez conhecer o melhor de mim e me fez conhecer o pior de mim. E algures entre vivências, experiências de amor, perda e resiliência, me fez renascer uma e outra vez. Ao meu filho Rodrigo, simplesmente Obrigada!”
Ílhavo, 17 de janeiro de 2026



