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“Barro de Saudade”: dar forma ao luto através da criação

A exposição “Barro de Saudade”, realizada no dia 2 de dezembro de 2025, deu a conhecer os trabalhos desenvolvidos no âmbito dos workshops de modelação de barro dinamizados por Adela Pakandlova, investigadora e aluna de doutoramento da Universidade de Coventry, Reino Unido, durante o seu estágio internacional na Universidade de Aveiro. Esta iniciativa insere-se numa colaboração internacional promissora, desenvolvida através do Departamento de Educação e Psicologia e do projeto de investigação “Aconselhamento no Luto: formação especializada no contexto português”, contribuindo para alargar o diálogo entre investigação, formação e intervenção no domínio do luto.

A proposta de Adela Pakandlova assentou na utilização da modelação de barro como ferramenta terapêutica e educativa no apoio a pessoas em luto. Ao longo do estágio, as oficinas foram pensadas para diferentes públicos, incluindo grupos de apoio ao luto, estudantes, docentes, investigadores e outros membros da academia, combinando expressão artística, psicoeducação e desenvolvimento emocional. Esta abordagem parte do princípio de que o contacto com a matéria, o gesto de moldar e a criação de formas simbólicas podem favorecer processos de expressão e elaboração emocional particularmente relevantes em experiências de perda.

O barro assume, neste contexto, um lugar especial. Enquanto material orgânico, moldável e sensorial, permite que emoções difíceis encontrem forma, volume e, muitas vezes, palavras. Para muitas pessoas, sobretudo em contextos de sofrimento profundo, nem sempre é fácil traduzir por linguagem verbal aquilo que se sente. A criação artística pode, por isso, funcionar como um mediador importante, abrindo espaço à simbolização, à reflexão e à reconstrução de significado após a perda.

O estágio de Adela Pakandlova teve como prioridade principal a dinamização de workshops de modelação de barro junto de grupos de apoio ao luto, promovidos em contexto comunitário. Essas oficinas procuraram oferecer um espaço seguro e acolhedor para a expressão simbólica da dor, recorrendo à arte como recurso de suporte emocional e de reconstrução do sentido. A exposição “Barro de Saudade” incidiu, em particular, sobre o trabalho desenvolvido no âmbito do Programa de Apoio a Pessoas em Luto (PAPL), dinamizado pelo Município de Ílhavo, em contexto de grupos de apoio a pessoas em luto.

As peças apresentadas revelaram percursos profundamente singulares, marcados por memórias, vínculos, ausências e tentativas de reorganização interna perante a perda. Mais do que objetos artísticos, os trabalhos expostos testemunharam processos de encontro consigo próprio e com os outros, tornando visível a importância de práticas criativas e relacionais no acompanhamento de pessoas enlutadas.

Esta iniciativa destaca também o valor das colaborações internacionais no enriquecimento das práticas de investigação e intervenção em Portugal. Ao articular saberes provenientes da educação, da arte e do apoio ao luto, o estágio de Adela Pakandlova abriu novas possibilidades para pensar respostas mais sensíveis, integradas e humanizadas. A exposição “Barro de Saudade” constitui, assim, um exemplo inspirador de como a criação artística pode ajudar a dar corpo ao invisível e a sustentar caminhos de cuidado no luto.