No dia 4 de dezembro de 2024, o Centro Rainha D. Leonor, da Santa Casa da Misericórdia de Oliveira do Bairro, organizou uma sessão de esclarecimento dedicada à perda ambígua na demência, no âmbito do grupo de apoio a cuidadores informais de pessoas com doença de Alzheimer. A iniciativa contou com a participação de Cristina Felizardo, investigadora do projeto “Aconselhamento no Luto”, da Universidade de Aveiro e do CIDTFF – Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores, que dinamizou a sessão.
A perda ambígua psicológica é um conceito introduzido na década de 1970 por Pauline Boss, professora emérita da Universidade do Minnesota. Trata-se de um tipo de perda paradoxal em que o ente querido permanece fisicamente presente, mas ausente psicologicamente, devido à deterioração progressiva da demência. Esta ausência psicológica distingue-se de outras perdas por ser contínua, sem resolução clara e marcada por uma ambiguidade que desafia a compreensão e aceitação (Boss, 1999; Boss & Yeats, 2014).
Durante a sessão, foi destacada a intensidade emocional, cognitiva, física e comportamental que este tipo de perda pode provocar nos cuidadores, gerando um estado de angústia crónica. Apesar de ser uma experiência profundamente dolorosa e prolongada, Boss salienta que esta angústia não implica necessariamente o desenvolvimento de uma doença mental. Pelo contrário, trata-se de um processo natural em que o luto e a tristeza são vividos de forma contínua, refletindo a complexidade emocional de cuidar de alguém com Alzheimer.
A resiliência, conforme explorado na sessão, reside na capacidade de conviver com a ambiguidade da perda. Estratégias como a redefinição de papéis familiares, a reconfiguração do laço afetivo com o doente e a normalização dos sentimentos de ambivalência podem ajudar os cuidadores a recuperar uma sensação de controlo e a projetar novos sentidos para a vida. Também foram abordadas formas de encontrar significado na perda, flexibilizar as expectativas e aceitar as mudanças na relação com o ente querido, promovendo um equilíbrio emocional mais saudável.
Este evento revelou-se um espaço de reflexão e partilha, proporcionando aos cuidadores informais ferramentas e estratégias valiosas para lidar com os desafios emocionais inerentes à doença de Alzheimer. A iniciativa reforçou a importância de apoiar os cuidadores na compreensão e gestão das suas vivências, ajudando-os a enfrentar o impacto contínuo desta perda única.
