Artigo escrito por Cristina Felizardo, investigadora do CIDTFF, do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, para a revista ‘Saúde & Bem-Estar’ , suplemento do Diário de Aveiro.
O luto é uma experiência humana de amor, perda e resiliência, que apesar de ser um fenómeno universal, continua envolto em silêncio e estigma. Todos o vamos viver num determinado momento das nossas vidas, um momento disruptivo que nos muda a vida para sempre, mas poucos de nós foram preparados para o compreender ou acompanhar. Educar para o luto, e para a morte, é, por conseguinte, uma premissa para a promoção do bem-estar no indivíduo e na comunidade, assente na pedra basilar que o luto não é um problema da saúde mental, mas sim uma expressão saudável da nossa capacidade de amar e de sofrer com a ausência.
A promoção da literacia sobre o luto exige mais do que informação: requer uma compreensão profunda, diálogo e uma prática de cuidado. Significa transformar o conhecimento em presença empática, tanto nas famílias como nas escolas, instituições e comunidades. Falar de luto é, afinal, falar de humanidade, de laços de afeto e de continuidade.
Existem princípios fundamentais que ajudam a sustentar uma abordagem informada. O primeiro é a naturalidade do luto: não se trata de uma doença, mas de uma resposta humana à perda. A seguir vem a complexidade, que nos lembra que o luto é multifacetado e relacional, e a contextualidade, pois cada cultura, história familiar ou crença, influenciam a forma como se sofre e se recomeça. A perda desafia a identidade do individuo, abala a sua segurança no mundo e requer respeito pela autonomia, pois cada pessoa deve poder decidir como viver o seu luto.
No entanto, a sociedade continua a alimentar mitos persistentes que dificultam a vivência saudável da dor. Um desses mitos é “o luto vive-se em fases”, resultado de uma interpretação simplista do modelo teórico do luto de Kübler-Ross. O luto não é linear, mas sim cíclico, com momentos de avanço e recuo, o que é normal. Outro mito é o da “forma certa” de sofrer. Não existem gestos prescritos: há quem chore, quem escreva, quem fique em silêncio, quem caminhe. Todas as formas são legítimas, desde que aliviem a pessoa em luto do seu sofrimento. Por fim, há o mito do “prazo”, ou seja, a ideia de que há um limite de tempo para a dor. O luto permanece como uma marca na linha de vida da pessoa que o vive, transforma-se e integra-se na sua biografia, reaparecendo por vezes em datas, cheiros ou memórias.
Desconstruir estes mitos é uma tarefa coletiva. Significa compreender que o luto não é uma complicação da saúde mental, mas sim, uma experiência necessária para a promoção desta. Promover a educação para o luto significa promover a resiliência, a empatia e a gestão emocional, construtos essenciais para uma sociedade mais compassiva. Ao aprendermos a reconhecer o luto como expressão do amor que permanece, cuidamos melhor de nós e de uns dos outros.
Grief is the price we pay for love.
Colin Murray Parkes
Se conhece alguém que possa beneficiar destes pensamentos e reflexões, partilhe este artigo.
