No passado dia 24 de maio, a Praça do Marquês e dois outros espaços vizinhos tornaram-se palco de um acontecimento inédito: o Festival do Luto, promovido pela associação sem fins lucrativos Compassio. Entre as 10h00 e as 17h00, centenas de pessoas circularam por atividades que iam do teatro à poesia, do yoga ao chi kung, passando por conversas abertas sobre perda, doença e finitude. O objetivo, assumido desde o primeiro momento, foi “quebrar a cultura do silêncio” que ainda envolve o luto em Portugal.
Sob o mote «O luto é único, universal e comunitário. Vamos falar sobre ele?», o programa foi pensado para todas as idades. As crianças dispuseram de jogos, oficinas criativas e leitura de contos, enquanto os adultos participaram em sessões de partilha com especialistas. Na Praça do Marquês ergueu-se um memorial colectivo onde cada visitante pôde escrever o nome de quem perdeu ou deixar uma mensagem simbólica. No mesmo local surgiu um mural colaborativo com a frase-desafio «Antes de morrer eu quero…», visível convite a reflectir sobre a finitude e o sentido da vida.
Ainda durante a manhã realizaou-se uma mesa-redonda «Porque é que é tão difícil falar sobre o luto?», que reuniu Cristina Felizardo, investigadora do CIDTFF da Universidade de Aveiro, Rui Ramos, psicólogo da Consulta do Luto do Hospital de São João, e Inês Breda, médica de medicina paliativa. Num diálogo vivo com o público, os oradores sublinharam a importância de reconhecer perdas que extravasam a morte física: o fim de uma relação, a perda de emprego, o declínio da saúde ou a renúncia a projectos de vida.
A presidente da Compassio, Mariana Abranches Pinto, reforçou essa mensagem ao apresentar a campanha #Emlutocontigo, lançada em paralelo com o festival. Treze personalidades, entre elas o humorista António Raminhos e a jornalista e escritora Laurinda Alves, partilharam nas redes sociais o que mais os confortou (ou magoou) quando atravessaram perdas significativas. O convite estendeu-se aos seguidores: «O que dirias a alguém em luto?» A ambição, explica Mariana, é «alterar comportamentos» e construir comunidades mais compassivas. O dia terminou com o percurso sensorial “O silêncio dos pássaros”, no qual os participantes foram guiados por diferentes estações de escuta e meditação, preparando-se simbolicamente para levar consigo a experiência de uma dor legitimada e acolhida. O Festival do Luto confirmou, assim, que falar sobre perda não agrava a ferida; antes cria pontes de empatia que sustentam a cura.
Grief is everybody’s business.
Samar Aoun
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